Grupo Galpão apresenta “Outros” no Festival de Curitiba

Em sua 24ª montagem, o Grupo Galpão, que conta com patrocínio master da Petrobras, retorna ao Festival de Curitiba dando continuidade à bem sucedida parceria com o diretor Marcio Abreu. Em “Outros”, que integra a Mostra 2019, a poesia, a escuta, a alteridade, o olhar para a dimensão do espaço público compõem uma dramaturgia polifônica e sensível aos tempos atuais. As apresentações acontecem nos dias 28 e 29 de março, às 21h, no Teatro da Reitoria.

Crédito – Guto Muniz.

O espetáculo nasce como uma consequência natural do amadurecimento das inquietações trabalhadas na premiada montagem “Nós” (2016), que foi destaque na edição passada do Festival de Curitiba, em 2018. “[O espetáculo] é exatamente a expressão desse nosso momento. É um desdobramento consciente do primeiro trabalho que fizemos juntos. É uma experiência criativa que aprofunda a pesquisa numa escuta social performativa, que se constitui dramaturgicamente valendo-se de percepções múltiplas do mundo e de como ele age sobre nós”, descreve o diretor Marcio Abreu.

Nessa busca pelo outro e pelo lugar do artista na atualidade, o grupo desenvolve a escuta como linguagem, e investiga a construção da memória, o impacto do agora no porvir, as possibilidades e impossibilidades do hoje. Assim, trata da radicalidade contemporânea, da necessidade de ruptura com pensamentos arraigados que devem perecer, mas que persistem como estruturas.

A busca levou a uma expressão dramatúrgica que ultrapassa a extensão da palavra e culmina no inverso da fala, dando ênfase para outras formas de linguagem, como o silêncio, o movimento, o gesto. O resultado é uma peça tecida com os rastros de memória presentes não só no discurso, mas fundamentalmente nos corpos das atrizes e atores que ocupam o palco.

O texto do espetáculo foi construído na sala de ensaio, a partir do material levantado em exercícios e performances de rua, individuais e coletivas, propostas pelo diretor e pelos próprios atores, ambos alimentados por um laboratório de performance ministrado pela artista Eleonora Fabião. Foi durante essa experiência que a simbólica mesa de reunião do Galpão saiu do espaço privado e foi passear pelo centro de Belo Horizonte, enquanto atores e atrizes convidavam pessoas para se sentar, dividir seu tempo e histórias com eles. Assim o cotidiano da rua foi atravessado pelos corpos dos artistas, dando voz e protagonismo ao público, e gerando as primeiras abstrações para concretização de “Outros”.

Durante todo o processo de pesquisa para a montagem, o elenco se debruçou em diversas leituras, como “Frigorífico”, do francês Joel Pommerat, e “Os embebedados”, do russo Ivan Viripaev. Tais referências serviram de material, junto aos outros exercícios, para a criação da dramaturgia, elaborada em conjunto por Marcio Abreu e os atores Eduardo Moreira e Paulo André.

Crédito – Guto Muniz.

Essas experiências somadas também foram traduzidas nas músicas, compostas pelos próprios atores, que executam ao vivo em cena. Nas palavras do diretor, “Outros” descreve trajetórias entre o cheio e o vazio, entre a insuficiência das palavras e a potência do silêncio, entre construção e ruína, entre os tempos, passado, presente e futuro e que busca interligar o artístico, o existencial e o político, reagindo à dureza e à violência desses tempos nossos quando a ignorância usada como arma sustenta um fascismo crescente e contra o qual precisamos lutar com as armas das linguagens, do amor, do erotismo e da consciência.

Grupo Galpão – Criado em 1982, em Belo Horizonte (MG), o Grupo Galpão é uma referência incontornável no cenário teatral brasileiro, cuja origem está ligada à tradição do teatro popular e de rua. Desde o início, o grupo desenvolve um trabalho que alia rigor, pesquisa e busca de linguagem, com peças que possuem grande poder de comunicação com o público. É um dos grupos brasileiros que mais circula, não só pelo Brasil, como pelo exterior, tendo participado de vários festivais em países da América Latina, América do Norte e Europa. Formado por 12 atores, o Galpão construiu sua linguagem artística a partir de encontros com diversos diretores, como Eid Ribeiro, Gabriel Villela, Cacá Carvalho, Paulo José, Yara de Novaes, entre outros, criando um teatro que dialoga com o popular e o erudito, a tradição e a contemporaneidade, o teatro de rua e de palco, o universal e o regional brasileiro.

Vídeo: https://www.youtube.com/user/grupogalpao