Escritora paranaense lança obra literária em prol do Hospital Pequeno Príncipe

Era uma vez a história de uma menina que de tanto ouvir que era feia, se achava feia. Ela passou toda a infância e adolescência como uma equilibrista amadora: sentia a tensão de quem caminha numa corda bamba, fazendo malabarismo para lidar com suas emoções e autoestima. A violência psicológica era vivida dentro da sua própria casa. Junto a essa dor, estava a figura da mãe, sempre amável, generosa e humana, mas muitas vezes impotente e sem recursos diante daquela situação familiar tão complexa. Mesmo assim era ela, a mãe, que estendia a mão para a menina para que ela não desabasse da corda da vida, evitando feridas e traumas maiores que a impedissem de crescer e inventar seu futuro.

Crédito – Divulgação.

Esse drama de falta de afeto vivido por muitas pessoas durante a infância e até na vida adulta é mais comum do que se pensa. E a personagem do enredo acima é, em parte, real, e traz nela alguns elementos da história da paranaense radicada na França, Maria Augusta Severino Clérisse, autora deste livro bilíngue “Gosto mais de você, mãe” – cujo título em francês é “Je t´aime plus, maman”. A obra, que delicadamente aborda esse tema difícil com doçura e otimismo, nos acorda para a linda bandeira da responsabilidade afetiva e será publicada pela Editora InVerso, no final do próximo segundo semestre.

Na trama literária, a personagem Lúcia, uma criança doce e sensível, aprende a lidar com a falta de afeto e outras emoções, como a insegurança e o medo. O livro é em parte autobiográfico e inspirado em muitas outras histórias reais de falta de afeto (materno ou paterno) divididas por corajosas e generosas ex-crianças que aceitaram ser entrevistadas para compor a personagem principal do livro, a menina Lúcia. Na voz da protagonista, a autora transmite a mensagem que as pessoas devem, acima de tudo, amar-se a si próprias, independentes dos julgamentos alheios.

“Eu demorei muito para admitir e entender que havia um problema na minha família. E mais difícil ainda foi falar sobre o assunto. No livro, tento transmitir aos leitores a importância do aprendizado em aceitar que mesmo quem sofre por falta de afeto pode contar com outras pessoas que a amam de verdade, de forma espontânea e gratuita, por tudo que ela é, inclusive com seus defeitos e imperfeições”, conta Augusta.

O livro catalogado como infanto-juvenil é indicado para o público adulto – pais, mães, avós, tios – e mostra a responsabilidade afetiva que eles têm na vida das crianças e adolescentes a nossa volta. “Por meio da história da Lúcia, quero despertar nas famílias a importância do afeto na construção da segurança emocional na infância e na adolescência. Eu acredito que uma criança que recebe segurança afetiva em casa, pode ter mais facilidade em pedir ajuda nos momentos difíceis. O ato de pedir ajuda é para mim extremamente corajoso e otimista, pois quem pede ajuda está olhando para o futuro, afirma a escritora.

Nobre é contribuir
“Gosto mais de você, mamãe” (“Je t´aime plus, maman”) é fruto do acaso, das coincidências que apareceram na trajetória de Augusta e que a nortearam para dividir sua história e aplacar sua dor. “É muito difícil pedir ajuda e esse é um ato de coragem imenso. Dividir nossa dor é uma forma de amenizá-la, é uma maneira de transformar o sofrimento em algo positivo para si mesmo em primeiro lugar e para outros que vivem a nossa volta”, diz.

Em 2014, Maria Augusta trabalhava na embaixada da Nova Zelândia em Paris, como Business Development Manager, e foi convidada pela escola de gastronomia Le Cordon Bleu para um jantar beneficente, em Paris, comandado por renomados chefes brasileiros e franceses (entre eles Claude Troisgros e Roberta Sudbrack), em prol do Hospital Pequeno Príncipe, de Curitiba, sua cidade natal.
Na ocasião, ouviu histórias reais de pacientes daquela entidade, que, além de enfrentarem a doença física, precisavam conviver com um quadro de falta de afeto – situação, muitas vezes, sem remédio.
Uma história de abandono sofrida por uma criança doente, em especial, marcou e comoveu a brasileira, que não conseguiu esquecer do episódio. E foi ao ouvir a história de um desconhecido que as lembranças doloridas, que pareciam adormecidas, vieram à tona. O que Augusta ainda não sabia, naquele momento, é que sua empatia com alguém incógnito seria uma forma de curar sua própria ferida.

“Saí de lá com a ideia fixa de que precisava fazer alguma coisa para contribuir. Depois de passar muito tempo pensando em como ajudar esse hospital, que alia excelência médica e humanização no tratamento das crianças e adolescentes internados, além do cuidado com suas famílias. Um hospital onde 60% dos leitos são destinados para o SUS e que as crianças internadas pelo sistema público de saúde recebem os mesmos cuidados, carinho e atenção que os pacientes conveniados ou particulares merecem nosso respeito e admiração. Foi em razão dessa descoberta que resolvi por minha história no papel, como uma forma também, de colocar para fora toda aquela bagagem negativa que ainda me causava sofrimento. Entendi que escrever um livro, cuja verba dos direitos autorais será revertida para o Hospital Pequeno Príncipe, era a melhor alternativa”, relata a escritora.

Juntos, somos mais fortes
Financiamento coletivo ou vaquinha virtual é uma forma de financiamento na qual um grupo de pessoas se junta para viabilizar um projeto destinado a uma coisa. E essa foi a modalidade escolhida para Maria Augusta para custear a produção do seu livro. Quem quiser comprar o livro e contribuir com essa causa deve acessar o link: https://www.catarse.me/gostomaisdevoce_jetaimeplus?project_id=100865&project_user_id. Essa iniciativa é apoiada ainda por uma corrente do bem: Quintana Gastronomia, Lumière Comunicação, Nevon, Gestão Inteligente, Bodebrown, Yoga para Todos e, claro, pelo Hospital Pequeno Príncipe de Curitiba.

Sobre o hospital:
Há 100 anos, o Hospital Pequeno Príncipe, de Curitiba, região Sul do Brasil, oferece atendimento por meio do sistema público de saúde. Maior hospital pediátrico do Brasil e realiza, por ano, mais de 300 mil atendimentos ambulatoriais, 23 mil internamentos, 21 mil cirurgias. Destaca-se em procedimentos de alta complexidade, como transplantes de órgãos como rim e coração, tecidos e medula óssea. Além disso, é um tradicional centro formador de pediatras no Brasil. Com o investimento em assistência, ensino e pesquisa, além do Hospital, conta com a Faculdades Pequeno Príncipe e o Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe.