Bares e baladas fechados estimulam visitas a aplicativos de “paquera”

A pandemia do novo Coronavírus vai além da crise na saúde e na economia. As relações humanas foram afetadas em razão do distanciamento social, que é a principal medida para conter a escalada da Covid-19. Nesse momento, o público cativo que frequentava bares, baladas e outros eventos sociais em busca do “par ideal” ou simplesmente de um romance causal e sexo sem compromisso recorrem aos encontros virtuais.

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Em outros países, os aplicativos de relacionamento já registram aumento no número de usuários, o que aponta para a chegada de um novo grupo nos apps. Essas plataformas agora estão na mira daqueles que, num passando recente, buscavam companhia apenas em locais que permitiam encontros presenciais.

Na Índia, os apps TrulyMadly e Aisle testemunham níveis históricos de envolvimento desde que o isolamento social entrou em vigor. O OkCupid, do Match Group (que também opera o Tinder), informa um aumento no uso entre daters mais jovens em grandes cidades. Nas cidades americanas como Nova Iorque, Boston, Washington e Chicago, um aplicativo chamado S’More registrou aumento de 28% na terceira semana de março, no início da quarentena naquele país. Já no aplicativo holandês The Inner Circle, o número de correspondências e mensagens enviadas já aumentou 99% e 116% no mês de março, respectivamente.

Para a psiquiatra e sexóloga Alessandra Diehl, essa tendência está se repetindo no Brasil. “Ainda não temos pesquisas sobre esse fenômeno, mas já ouvimos relatos sobre o uso de apps nos consultórios e nas conversas com outros profissionais, que também notaram essa tendência entre seus pacientes”, diz.

E não são apenas os mais jovens que estão atrás de um “match” nos aplicativos de relacionamento, na visão de Alessandra. “Os mais maduros também buscam um acalento nessas plataformas. Uma das usuárias assíduas desses apps com as quais conversei relatou que percebeu que houve um incremento no público, inclusive de homens casados, buscando encontro. A retórica deles é de que a convivência familiar conjugal no confinamento começou a se estreitar e começar a se relacionar sexualmente com a mesma pessoa, que está sendo vista de uma maneira diferente após um verdadeiro Big Brother familiar, está incentivando a procura por novas parcerias”, conta Alessandra.

Ainda segundo ela, nada mais será como antes na era pós-Covid-19. A humanidade mudará em muitos aspectos e “adaptação” e “transformação” serão as palavras de ordem num futuro próximo. E a sexualidade também irá sofrer os efeitos da pandemia. “Tendo em vista a adoção de homens casados nos aplicativos de encontros, por exemplo, surgirão novos questionamentos: o que é traição de fato? Será que os homens casados entram nesses apps somente para um sexting, trocar mensagens eróticas e nudes, mas não levam a cabo os encontros de fato? Que fenômeno é esse?

Estamos escrevendo essa história ainda em tempo real e não sabemos das consequências para o futuro. Muitas vezes, o que vemos nos encontros promovidos pelos aplicativos são as relações descritas pelo sociólogo Zygmunt Bauman como amor líquido, pautadas no aqui e no agora. O estudioso analisa a rapidez e a forma imprevisível dos relacionamentos, que apontam para a fragilidade dos laços humanos. E muitos encontros virtuais que vemos nessa quarentena refletem a visão de Bauman e nos fazem repensar sobre a carência em tempos de pandemia”, avalia Alessandra.

Faca de dois gumes

O psicólogo Rogério Bosso alerta para o perigo das relações que começam na tela do celular e que terminam na cama. Na opinião dele, a busca desenfreada por uma parceria sexual pode comprometer a saúde dos usuários dos aplicativos. Afinal, estão se expondo ao risco de se encontrar com desconhecidos quando a orientação é manter o isolamento social como forma de prevenir a infecção pelo novo Coronavírus.

“As pessoas estão acreditando em palavras de pessoas que nunca tinham visto. Só a palavra vale: ele (a) está se cuidando, está em isolamento? Como confiar nessa informação para se encontrar? Em quantas pessoas você confiaria? A palavra de um desconhecido tem valor? Como grande parte dos infectados são assintomáticos não há garantia de que o novo parceiro (a) não esteja doente. O desejo não pode estar à frente da precaução”, argumenta Rogério Bosso.