Dramaturgia de resistência: Artistas de Minas Gerais levam quatro espetáculos autorais ao coração do Fringe 2026
O que é preciso desobedecer para transformar estruturas opressoras e obsoletas? É a partir dessa provocação que se organiza a Mostra Insubmissa, que reúne no Fringe da 34ª edição do Festival de Curitiba um conjunto de obras criadas por artistas de Juiz de Fora (MG), marcadas pela força da dramaturgia autoral. Entre cozinhas que guardam segredos de família, personagens que escapam das páginas de Machado de Assis, mitos religiosos revisitados com ironia e jogos imaginativos da infância, os trabalhos transitam por universos muito distintos, mas compartilham uma mesma pulsão: questionar o que parece estabelecido e reinventar narrativas.
A Mostra Insubmissa acontece entre 1º e 6 de abril de 2026, no Memorial de Curitiba, reunindo quatro espetáculos, cenas curtas, leitura dramatizada e música ao vivo. “O projeto nasce de duas necessidades complementares. A primeira, reunir histórias ligadas pela insubordinação, pela reflexão crítica, pela recusa em baixar a cabeça. A segunda, mostrar que essa resistência à opressão vem do interior, chega com o pé na porta e sotaque mineiro, vindo de longe do eixo dos grandes centros e celebrando o impulso criativo artesanal de Minas”, afirma Tairone Vale, um dos idealizadores.
A ocupação também promove o trânsito entre linguagens. O espetáculo Doce Árido, que encerra a mostra, marca o retorno aos palcos de atriz Pri Helena com trabalhos recentes de destaque no audiovisual nacional, como o premiado longa Ainda Estou Aqui e a novela Volta por Cima.
Narrativas da insubmissão
Entre os espetáculos está Doce Árido, parceria do coletivo Grilla! com o dramaturgo e diretor Tairone Vale. A montagem acompanha três gerações de mulheres que sustentam a casa com a produção artesanal de doce de leite no interior de Minas Gerais. Em cena, o trabalho cotidiano na cozinha se transforma em metáfora para discutir herança familiar, sobrevivência e resistência feminina. O elenco reúne as atrizes Pri Helena, Rebeca Figueiredo e Layla Paganini.

Doce Árido. Crédito – Marcella Calixto.
A mostra ainda traz de volta a Trupe Qualquer a Curitiba, onde esteve em 2024, no FRINGE com sua Minas Mostra. Desta vez, em uma ousada releitura do maior autor brasileiro, Um Homem Célebre é construída a partir dos mais famosos contos de Machado de Assis. A peça costura personagens e situações do romancista para explorar temas universais e atemporais como identidade, arte brasileira, sucesso, fracasso e as contradições da natureza humana. A ideia era contribuir para a vida de uma obra que persiste em apontar feridas, sobretudo em um momento que Machado de Assis pode ser relido a partir de sua negritude, tarefa que a peça se encarrega. Para a supervisão dramatúrgica é assinada por Pedro Kosovski, diretor e dramaturgo carioca vencedor do Prêmio Shell de Teatro.

Versão Demo. Crédito – Thais Andressa.
Já o solo Versão Demo, primeiro monólogo escrito e protagonizado por Tairone Vale, apresenta uma perspectiva provocadora: o próprio Senhor das Trevas decide contar sua versão da história. Com humor ácido e ironia, o espetáculo revisita narrativas religiosas e questiona conceitos de culpa, moralidade e livre-arbítrio.

Como Cozinhar Uma Criança. Crédito – Marcella Calixto.
Voltado ao público infantil e familiar, Como Cozinhar uma Criança parte de uma premissa inusitada: em um programa culinário fictício, dois cozinheiros discutem se devem ou não seguir uma receita que manda preparar… uma criança. O tema gira em torno da importante pergunta: como preparar uma criança para não virar um adulto duro e intragável? Inspirado no livro do escritor português Afonso Cruz, o texto e direção de Tairone dão vida ao espetáculo que mistura teatro, música e humor para abordar imaginação e infância de forma lúdica. A montagem marca também a estreia teatral da Banda Trupicada.

Crédito – Divulgação.
Além dos espetáculos, a Mostra Insubmissa inclui as cenas curtas Pharmakon e Memento Mori, da Trupe Qualquer, com textos de Rafael Coutinho, a leitura dramatizada de Big Bang, texto infantojuvenil de Tairone Vale, e ainda um pocket show da Banda Trupicada.
Do palco para as páginas: lançamento literário
O Fringe de Curitiba marca também o nascimento editorial de Versão Demo. Após quase dez anos de gestação, o monólogo de chega ao formato de livro pela Helicônia Editora. A publicação reúne o texto integral da peça e ilustrações de Bel Benetti, que transformam o sarcasmo do espetáculo em um jogo visual igualmente irreverente.
Acesso como manifesto: Pague quanto Vale
Na contramão da elitização do acesso à cultura, todas as sessões da Mostra Insubmissa adotam o formato “Pague Quanto Vale”. Mais do que uma facilidade econômica, a escolha é um posicionamento político dos coletivos mineiros para democratizar a fruição artística e convocar o espectador do Fringe à corresponsabilidade pela manutenção da pesquisa teatral independente. “O teatro de resistência vive muito da insistência e da coletividade. A mostra também é um gesto de encontro entre artistas, obras e público”, afirma Rafael Coutinho, diretor de Um Homem Célebre e integrante da Trupe Qualquer.
Serviço: Mostra Insubmissa
Programação integrante do Festival de Curitiba – Fringe Festival
Local: Memorial de Curitiba – Teatro Londrina (R. Dr. Claudino dos Santos, 79 – São Francisco)
Data: 1º a 6 de abril de 2026
Ingressos: Pague quanto vale
Acesse: www.mostrainsubmissa.com | @mostrainsubmissa
Programação
01 DE ABRIL
11H – Pocket Show: Banda Trupicada
SINOPSE: Com Lívia Gomes e Felipe Tavares à frente, a Banda Trupicada apresenta um pocket show vibrante que mistura música, histórias e muita brincadeira. Em formato compacto, o duo cria um encontro leve e envolvente com diversão garantida para toda a família.
DURAÇÃO: 30 minutos
CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA: Livre
17H – Cenas Curtas: Memento Mori e Pharmakon

Memento Mori. Crédito – Divulgação.
SINOPSE MEMENTO MORI: Uma mulher com muitas atribulações de trabalho sofre um acidente em frente ao cemitério. Com esse acontecido ela tem uma revelação: todos um dia vão morrer, e, com isso, começa uma peregrinação para lembrar a todos que a vida é passageira. Livremente inspirada em Hamlet, de Shakespeare, a cena recria o delírio de Ofélia sob uma perspectiva do contemporâneo: o neoliberalismo que espera que os trabalhadores assimilem uma onipotência para nunca poderem parar de trabalhar.
DURAÇÃO: 15 minutos
CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA: 12 anos

Pharmakon. Crédito – Divulgação.
SINOPSE PHARMAKON: Uma mulher com a vida cronometrada precisa dormir. Urgentemente. Para isso, usará de artifícios não usuais de sua rotina que lhe trarão um encontro com o inesperado. Autocontrole e autogestão. Esses conceitos que sugerem uma ação autômata, em que o sujeito é “empresário de si mesmo” são novas facetas do patriarcado e da sociedade de controle. Esses desdobramentos filosóficos e sociais quando encontram com a estética dramatúrgica da Trupe Qualquer encontram o oposto. Quando se fala de patriarcado, é preciso falar de feminino, quando se fala de social, é preciso falar de subjetivo.
DURAÇÃO: 15 minutos
CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA: 12 anos
02 DE ABRIL
11H E 17H – ESPETÁCULO: COMO COZINHAR UMA CRIANÇA
SINOPSE: Em um programa de culinária ao vivo, dois cozinheiros ensinam uma receita cujos ingredientes principais são,nada mais, nada menos que… CRIANÇAS. A ideia é preparar devidamente os pequenos para que não se tornem adultos intragáveis. O problema aparece quando os chefs não concordam quanto aos métodos de preparo. E agora? Quem será que vai acabar indo pra panela?
DURAÇÃO: 45 minutos
CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA: Livre
03 DE ABRIL
11H E 17H – ESPETÁCULO: VERSÃO DEMO
SINOPSE: Ele já foi o favorito do Patrão. Agora é persona non grata. Neste solo irreverente, o chamado Senhor das Trevas atravessa tempos e vozes para narrar, com humor e acidez, a sua versão do livro mais vendido do mundo; uma história antiga demais para ser esquecida — ou aceita sem questionar.
DURAÇÃO: 90 minutos
CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA: 14 anos
04 DE ABRIL
11H E 17H – ESPETÁCULO: UM HOMEM CÉLEBRE

Um Homem Célebre. Crédito – Marcella Calixto.
SINOPSE: Na peça, um ator que está prestes a entrar em cena fica em pânico ao não conseguir se ver mais no espelho. Com isso, ele ata a ponta de sua vida à de Pestana, músico do teatro, que teve sua vida celebrada por compor polcas, e, também, por um suposto pacto com o Diabo – que na peça disputa com Deus a narrativa da Terra.
DURAÇÃO: 100 minutos
CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA: 14 anos
05 DE ABRIL
11H – LEITURA DRAMATIZADA: BIG BANG
SINOPSE: E se a criação do Universo não passasse de um grande jogo? Dois seres espaciais, identificados apenas como ELA e ELE, já entediados com a brincadeira de inventar estrelas, resolvem criar algo mais divertido. Assim surgem a Terra, a água, plantas, dinossauros e, finalmente, a humanidade. Só não contavam que sua maior criação, o ser humano, fosse tão complicada!
DURAÇÃO: 40 minutos
CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA: Livre
17H – ESPETÁCULO: DOCE ÁRIDO
SINOPSE: À beira do tacho, três gerações de mulheres sustentam a casa com a produção artesanal de doce de leite. Entre o risco de um parto, a escassez que ronda e a promessa de uma encomenda capaz de mudar suas vidas, mãe, filha e avó se equilibram entre o peso da tradição e o desejo de liberdade.
DURAÇÃO: 90 minutos
CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA: 14 anos
06 DE ABRIL
11H – ESPETÁCULO: DOCE ÁRIDO
Informações adicionais
Sobre o coletivo Grilla!: Grilla! é um coletivo que, desde 2018, se dedica a explorar o diálogo entre teatro e audiovisual. Seu trabalho se desdobra em diversas frentes — cinema, teatro, música, performances — a partir de perspectivas femininas e de processos colaborativos. “Doce Árido” é fruto de uma parceria entre o coletivo com o diretor e dramaturgo Tairone Vale.
Sobre a Trupe Qualquer: A Trupe Qualquer tem sua linguagem artística baseada no teatro popular e nos entrelaçamentos entre teatro, literatura e música. Seu espetáculo de estreia foi destinado às infâncias, Café com Leite, e agora encena um espetáculo (Um Homem Célebre) para o público adulto. É formada por Rafael Coutinho, Beatriz Lira, Cristiam Concolato, Giovanna Stehling e Jeann Cavallari
Sobre a Banda Trupicada: Formada por oito músicos de Juiz de Fora, a Banda Trupicada aposta em espetáculos que integram músicas, brincadeiras e contação de histórias. As composições do grupo são fruto de um processo constante de trabalho e pesquisa sobre a cena brasileira da produção musical infantil, bem como da vivência com crianças em escolas da educação infantil e ensino fundamental. Com o espetáculo Como Cozinhar uma Criança, inspirado no livro de Afonso Cruz, a banda realiza sua primeira criação teatral.
Sobre Pri Helena: Doce Árido marca o retorno de Pri Helena aos palcos depois de dar vida à Zezé de AINDA ESTOU AQUI e da Cacá da novela VOLTA POR CIMA da Rede Globo. Atriz, roteirista, diretora e produtora, Pri Helena compõe também o elenco da série “Os Outros”, Temporada 2, na Globoplay. Atuou nos longas “Turvo”, (dir. Murillo Sued), e “Cabrito”, (dir. Luciano de Azevedo); no média-metragem “Cyclone”, e nos curtas “Moscas Mortas”, “Trancinhas” e “Ondas”. Pri Helena encabeça o “Grilla!”, um coletivo de mulheres que exploram, em suas criações, o diálogo entre o teatro e o audiovisual. No teatro, destacam-se os espetáculos “O Rinoceronte”, indicado ao Prêmio Shell 2019, “Os Impostores”, “Nerium Park” e “Antes da Chuva” sob direção de Rodrigo Portella.
Sobre Tairone Vale: Tairone Vale é ator, produtor, diretor, roteirista e dramaturgo que, convidado pelo diretor Rodrigo Portella a protagonizar “As Bruxas de Salém” em 2009, não parou mais. Com o diretor, co-escreveu e atuou em “Uma História Oficial”, e atuou em “Alice Mandou um Beijo”,“Quase Nada é Verdade”, “4x Nelson”, “Insetos”, com a Cia dos Atores e texto de Jô Bilac, e “Os Impostores”. Atualmente circula com seu primeiro solo autoral, “Versão Demo”, dirigido por Suzana Nascimento. Na TV, participou de diversas séries e novelas como “Justiça”, “O Outro Lado do Paraíso”, e “Segundo Sol”, onde interpretou o Delegado Nolasco. O mais recente trabalho na Rede Globo foi no elenco principal de “Terra e Paixão”, novela das 21h, como o espião Ruan Alves. Escreveu “Sinopse”, curta que atuou ao lado de Maitê Proença e Gabriel Godoy e “Aqueles Cinco Segundos”, vencedor de dois Kikitos em Gramado. Escreveu e dirigiu o infantil “Como Cozinhar uma Criança”, em cartaz. É roteirista e apresentador do canal de culinária e humor “Cozinha sem Paciência”. Escreveu o espetáculo “Big Bang”, publicado pela Universidade Federal de Ponta Grossa em 2021 e escolhido para a montagem de celebração dos 50 anos do Grupo de Teatro Universitário da UFPG. Em 2025, dirigiu Doce Árido, texto autoral que, gestado em 2013, parte da ficção para resgatar memórias de infância e afetos construídos pelas matriarcas de sua família.
Ficha Técnica Mostra Insubmissa
Realização: Aqui Tem Cultura, Grilla!, Trupe Qualquer e Trupicada; Direção de Produção: Cris Bourgeaiseau, Lívia Gomes, Pri Helena, Rafael Coutinho, Rebeca Figueiredo e Tairone Vale; Produção Executiva: Cris Bourgeaiseau; Identidade Visual: Rebeca Figueiredo
