Pessoas cegas e com baixa visão desfilarão na Marechal pela Rosa do Povo

A inclusão como princípio e prática ganha destaque no desfile da Escola de Samba Rosa do Povo, que neste Carnaval leva para a avenida uma ala formada por pessoas com deficiência visual, em parceria com o Instituto Paranaense de Cegos (IPC). A iniciativa reafirma o compromisso da escola com a democracia, a igualdade e a justiça social, valores que orientam sua atuação comunitária e seu engajamento histórico nas pautas das minorias.

Segundo Paulo Bearzoti Filho, presidente da escola, a integração de pessoas com deficiência faz parte da identidade da Rosa do Povo. “Somos uma escola comunitária, participativa, que vive e pulsa em favor da democracia e de uma escola livre de preconceitos. Assim como integramos a comunidade, buscamos também a integração das pessoas com deficiência”, afirma. A parceria com o IPC, explica, nasce de vínculos históricos com o movimento das pessoas com deficiência e da atuação de integrantes da escola ligados à militância por acessibilidade, como a diretora Sueli Fernandes, professora de Libras.

Para Bearzoti, a inclusão só é legítima quando construída de forma coletiva. “As medidas e adaptações necessárias não foram pensadas de forma isolada pela escola, mas em diálogo com o movimento das pessoas cegas, em parceria com o IPC. É isso que garante autonomia e legitimidade a essa participação”, destaca.

Na avaliação do IPC, a participação no desfile reforça o direito à cultura e à vivência plena da cidade. Para Ênio Rodrigues da Rosa, diretor geral do Instituto Paranaense de Cegos, o Carnaval, por ser uma festa popular e diversa, é um espaço potente de inclusão, empoderamento e participação social. Ele ressalta que a Rosa do Povo é uma escola reconhecida pelo engajamento nas pautas contra o preconceito e a discriminação, algo que também se reflete no samba-enredo, construído a partir da perspectiva da inclusão.

Ênio compartilha ainda a experiência sensorial de desfilar na avenida. “A sensação de uma pessoa cega percorrer a avenida, viver aquele trajeto, é algo muito gostoso, muito potente”, relata. Para ele, iniciativas como essa ampliam o acesso à cultura e reforçam o direito de pessoas com deficiência ocuparem plenamente os espaços da cidade, também por meio da arte e da festa popular.

Do outro lado da avenida, a experiência é vivida como conquista e visibilidade. Para Anderson Scherten, pessoa com deficiência visual que participa do desfile, ocupar esse espaço é um marco. “Estar na avenida como uma pessoa com deficiência visual é um grande passo para a inclusão e a representação. Estamos quebrando barreiras e mostrando que todos têm direito de participar e se expressar”, ressalta.

Anderson também destaca o papel do IPC na iniciativa. “É um orgulho ver o Instituto promovendo essa união entre educação e arte. Mostra que as pessoas com deficiência visual têm muito a oferecer e podem ser agentes de mudança”, diz. Já a abertura da Rosa do Povo é vista como exemplo. “Essa atitude mostra que a inclusão é possível e necessária, e aponta para uma sociedade mais justa e igualitária.”

A emoção de desfilar também é compartilhada por Givaldo de Lima, morador do Instituto Paranaense de Cegos e pessoa com baixa visão, que participa do desfile pelo segundo ano consecutivo. “Desfilei no ano passado e este ano vou novamente. Estamos bastante empolgados com a nossa escola, a Rosa do Povo. A fantasia está linda, o samba-enredo é maravilhoso. É uma emoção muito grande poder representar o Instituto nesse Carnaval”, afirma.

Givaldo destaca ainda a importância da criação da ala do IPC dentro da escola. “Achei muito legal ter essa ala das pessoas com deficiência. A expectativa é muito grande para entrar na avenida”, completa.